quinta-feira, 7 de março de 2013

 Continente passa por uma séria crise de identidade e unidade está ameaçada
Então a Grécia não quebrou, e a Europa começou a respirar com menos esforço, mas não por muito tempo. Os eleitores rebeldes da Itália, que optaram por um bilionário extravagante e um palhaço, nos recordaram semana passada com que profundidade a crise está entranhada no continente. Enquanto isso, a França está praticamente agindo sozinha no Mali e a Grã-Bretanha fala abertamente em deixar o barco europeu de uma vez por todas. Esta não é apenas uma crise da moeda da Europa, mas de sua própria alma.
Se um dia já existiu uma visão emergente de uma Europa unida, ela está desmoronando por falta de apoio de seus vários povos. Cada um tem seus próprios ressentimentos ou suspeitas dos parceiros. Porém, todos sofrem da mesma carência: pouquíssimos de seus cidadãos se veem em primeiro lugar como europeus.
Curiosamente, no final do século XX, os líderes e as instituições do Velho Continente não compreenderam que, para construir uma Europa comum, eles precisavam encontrar ou cultivar europeus com espírito continental, para dar ao projeto um alicerce federativo.
Como isso seria possível? A história da Europa do último meio século costuma ser retratada como uma sequência de passos rumo a um futuro comum. Porém, talvez, para compreender onde estamos agora, a História deveria começar antes – não com a aglutinação de França e Alemanha na década de 1960, mas com o modelo da Europa na década anterior à calamidade de 1914.
De forma importante, a Europa de 1913 era muito mais cosmopolita e europeia do que a de hoje em dia. Ideias e nacionalidades decresceram e convergiram num canteiro de criatividade. Aquele ano viu o auge do Futurismo, o começo do abstracionismo em Picasso e Braque, a estreia de "A Sagração da Primavera", de Stravinsky, a publicação de "No Caminho de Swann", de Proust. Colaborações para descobrir os segredos mais profundos da ciência transpunham as fronteiras com facilidade. A arquitetura da Áustria imperial e da França republicana encontrou imitadores em cidades que eram pequenas pedras preciosas por toda Europa Central e Meridional; elas eram chamadas de Pequena Viena ou Pequena Paris.
E existiam grandes comunidades de expatriados cosmopolitas – "passeurs" entre culturas, marcadamente os judeus urbanos, bem como as minorias alemãs, espalhadas pela Europa Central e Oriental. Embora o preconceito fosse profundo e fossem tratados asperamente em muitos lugares, em outros eles conseguiam se identificar como cidadãos de um grupo europeu maior, não meramente pela terra onde residiam, e aspiravam ao respeito e conforto.
Posteriormente, nas mãos dos totalitarismos, a maioria dos judeus seria massacrada e os alemães – como outros grupos – deportados aos países de origem. Ao lado de seus maiores crimes, Hitler e Stalin, dessa forma, fizeram sua parte para apagar a ideia de cosmopolitismo na forma que a velha Europa o entendia.
Tudo isso torna ainda mais pungente o costumeiro ponto de partida da narrativa europeia moderna: os escombros de 1945. Um imperativo avassalador pela reconstrução, aumentado pela Guerra Fria, uniu a Europa Central e colocou a Alemanha Ocidental no centro do palco. Os europeus prosperaram num mercado cada vez mais comum. Porém, o elemento unificador não era o otimismo, mas o pavor – o medo de outra guerra entre si ou de uma expansão soviética foi o que levou os europeus ocidentais a superar diferenças caso se desenvolvessem.
Após a queda do Muro de Berlim, a Europa Ocidental se expandiu para o leste, parecendo serenamente se aproximar do Fim da História – paz, prosperidade, segurança social, democracia, com um símbolo unificador, o euro, de Helsinki, Finlândia, a Sevilha, Espanha. Para seus mais de 400 milhões de habitantes, a Europa se tornou um parque temático, museu, supermercado – o continente da EasyJet: eficiente, rápido, aberto a todos a baixo custo.
Porém, agora a Europa pede sacrifícios e solidariedade, e se vê em declínio. Em todos os lugares, ganham populistas e nacionalistas. Gerenciar a austeridade, combater a dívida – no fim das contas, essa não é forma de unir a Europa.
Quem sabe os líderes europeus deveriam ter se alarmado mais quando o entusiasmo pela unidade começou a se esfarrapar antes mesmo da crise. Em 2005, eleitores franceses e holandeses vetaram o avanço rumo a uma constituição europeia. Enquanto isso, os países recém-libertados da Europa Central e Oriental – o "Ocidente sequestrado" de Milan Kundera, desfigurado por 45 anos de ocupação soviética – se viam com economias menos reeuropeizadas e mais globalizadas. O mesmo é válido para a geração ascendente da Europa; ela conhece os prazeres da economia moderna. Porém, tais artigos estão ao alcance mundial de qualquer pessoa com seu nível de riqueza e privilégio. Tirando o euro em suas carteiras, os jovens da Europa não sentem a presença da Europa diariamente.
Formadores de opinião, o comércio e o governo costumam concordar que o continente poderia lucrar com maior unidade política, pois a globalização favorece blocos continentais. Entretanto, as nações e os povos da Europa teriam de abrir mão da soberania, e nada os preparou para isso. No ritmo em que as coisas estão acontecendo, se os europeus forem pressionados em prol da unidade, eles vão recusar.
Por esse motivo, a Europa precisa encontrar uma nova ideia, uma nova visão, um alicerce para o futuro. Princípios familiares elevados não bastarão. Os direitos do homem, pluralismo, liberdade de pensamento, a social democracia do livre-mercado são itens presentes nas constituições de todos os países; os cidadãos não precisam da União Europeia para fornecê-los.
Como, então, estabelecer laços emocionais com a Europa?
Talvez a resposta seja a concepção de uma Europa de carne e osso, com cores, cheiros, folclores, força poética e variedade. O objetivo não é formado em princípios familiares – língua, História ou linhagem comum –, mas justamente pelo oposto: uma compreensão cultural e ponto de referência supranacional, fundamentalmente continental. Kundera cita a "diversidade máxima em espaço mínimo" da Europa – uma noção talvez tão poderosa quanto "liberdade, igualdade, fraternidade" ou "todos os homens são criados iguais".
Essa ideia fundamental é a condição "sine qua non" da unidade política continental. Uma cultura europeia como um todo daria espaço para laços que não existem mais, mas já existiram, como os "passeurs" e as pequenas Vienas e o fluxo de genialidade pelas fronteiras transmitindo o que significava se considerar europeu.
O conceito poderia ser conquistado por um programa cívico europeu em todas as escolas, pela ênfase no domínio de outros idiomas, pelo crescimento dos programas de intercâmbio (de todas as ideias e classes), pela melhoria da mobilidade, pela unificação dos sistemas de saúde e de aposentadoria da Europa, pela eleição de deputados europeus diretamente responsáveis perante seus eleitores, pelo tratamento mais igual de imigrantes e trabalhadores hóspedes.
Agora, algo para meditar. François Hollande, Angela Merkel e principalmente David Cameron: lembrem-se dos "passeurs"! Incentivem a criação de um espaço cultural e público unicamente europeu. Deem-nos uma visão para os povos da Europa: façam-nos sonhar em ser um único povo, e deixem suas ambiguidades de lado. Se vocês aspiram sinceramente a uma Europa política, então assumam a responsabilidade com coragem e uma visão que ultrapasse as próximas eleições e o futuro tropeço econômico.
Promovam a unidade espiritual do continente, organizada em torno de sua diversidade.
(Olivier Guez é colaborador do jornal alemão "Frankfurter Allgemeine Zeitung" e autor de um livro sobre os judeus na Alemanha desde 1945.)
Retirado daqui.

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